Lembranças (VII)

“Naquele dia, eu havia sido convidado por uma amiga a ir ao museu, e como de fato era um dos meus programas favoritos, de prontidão, aceitei. Era um daqueles dias exemplares do outono por aqui, havia uma fina camada de folhas secas sobre o gramado do jardim, o sol brilhava forte, mas não o essencial para nos esquentar de verdade, e toda a paisagem compunha o que poderíamos chamar de um belo dia. Lembro de estar sentado no pequeno banco de pedra na frente da entrada principal, ouvindo um pouco de música, e ignorando completamente o quanto um dia inocente daqueles poderia afetar a minha vida, ao que a esperava, atrasada como sempre. Foi nesse meio do curso natural que ao qual chamamos tempo que eu o vi pela primeira vez. Por acaso, eu estava olhando desinteressadamente ao meu redor ao mesmo tempo que ele levantava seu olhar do pequeno livro por alguns instantes, como para descansar, e, por uma fração de segundo, os nossos olhares se cruzaram. Eu acho que é para denominar esses momentos altamente significativos onde a chance do não-acontecimento é infinitamente superior que a do fato ter efetivamente acontecido que criamos a palavra coincidência. E foi nessa coincidência, ou para ela, que ele esboçou um sorriso e voltou ao seu texto. Não sei como teria sido se ele não tivesse sorrido, mas foi aquele sorriso que me chamou a atenção. Acredito que eu nunca vi, antes ou mesmo nunca depois, um sorriso que me intrigasse tanto assim. Naquele momento era como se eu tivesse vivenciado uma experiência estética de grau mui mais elevado que com qualquer obra que viria a observar lá dentro. Sei que enquanto ainda tentava decifrar aquele sorriso quase disfarçado quase proposital, minha espera chegou ao fim. A fim de manter a ambiguidade do último enunciado, continuo contando que durante toda a visita senti que ele, desacompanhado, me acompanhava com aquele sorriso e o olhar quase tímido, e eu pouco ou nada conseguia me concentrar nas esculturas, pinturas e fotografias tão belas que o museu, com tanto orgulho, ostentava. Foi quando, já no fim da visita, eu percebi que ele se afastou, sentando num canto, num pequeno banco estrategicamente colocado na borda de um dos vistosos jardins que circundava a obra mais famosa do local, para que a apreciação mais perfeita fosse possível. Quase magicamente, o local estava, naquela hora, deserto. Pedi licença à minha amiga, e fui, quase sem pensar, pelo mesmo caminho, sabendo só inconscientemente que ia, na verdade, ao seu encontro. Fiquei um bom tempo, de pé, apenas observando, enquanto ele olhava para cima e contemplava, absorto, mudo e inerte, aquela obra que havia contribuído com a humanidade com muito mais que algumas páginas que lhe são sempre dedicadas nos livros de história da arte. Mais uma vez, sem compreender o porquê, fui pego desprevenido quando, serenamente, mas na verdade contendo um turbilhão dentro de si, que ele voltou os seus olhos para mim, agora sem disfarce, sem sorriso, só com o seu brilho natural que parecia lhe emanar naquele momento. “Eram seus olhos” ele diria, muito tempo depois, quando eu o narrava o acontecimento, como agora, do meu ponto de vista. Sem mais palavras, talvez porque elas não eram necessárias, talvez porque eu não as tinha a altura na situação, caminhei até ele, dei-lhe um beijo suave, sentei-me ao seu lado e disse: “Boa tarde”. “Boa tarde”, ele me respondeu, tomando minha mão na sua pela primeira vez".

Bom dia / Realidade Paralela

M. não pôde deixar de sorrir quando abriu os olhos de manhã e logo pousou-os sobre o outro par que o olhava dormir tão serenamente e respirava profundamente. Estranhamente aquilo o acalentava. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ainda com o sorriso no rosto, levou as mãos à face do outro fazendo um pequeno carinho de agradecimento pela vigília do seu sono. O outro também esboçou um sorriso, talvez um dos mais sinceros da sua vida, e lhe deu um beijinho estalado no nariz antes de se levantar e ir até a cozinha. M. continuou a observá-lo, já que a posição da cama no quarto o favorecia nessa função, enquanto ele pegava uma caixa de leite na geladeira e colocava, naquilo que parecia uma eternidade, o conteúdo num copo, até a metade (o que pareceu satisfazê-lo naquele momento), e então se apoiar na parede do pequeno corredor e voltar a olhar para ele. Ficaram um momento se encarando, e M., depois de alguns momentos, riu, e afundou sua cabeça no travesseiro, de uma forma quase mágica, e quando novamente encontrou o verde da íris do outro, pôs a ponta da língua de fora e bateu uma vez no travesseiro ao seu lado, como que pedisse a companhia de volta.

T. pouco pôde acreditar como aquele momento lhe fazia feliz. Encarava, simplesmente porque não tinha mais outra reação, e realmente duvidava do como aquela manhã estava sendo simplesmente linda. Lindo, estava o outro, na sua opinião, com aquela linguinha de fora que o fez respirar um par de vezes antes de voltar, satisfeito, pra cama. Aquele convite era simplesmente irrecusável, e T. estava a admitir para si mesmo como o outro ficava ainda mais bonito de olhos abertos, com aqueles olhos negros despertos que no momento o hipnotizavam como se nada mais no mundo pudesse existir de tão profundo. Quando voltou à cama, T. lhe deu um suave beijo nos lábios, e T. pensou no quanto tempo esperou para que finalmente pudesse provar desse momento, que se mostrava tão bom ou ainda melhor do que anseava.

Quando os segundos que mantinham o selo acabaram, M. não pôde deixar de sorrir quando abriu os olhos e logo pousou-os sobre o outro par que o olhava tão serenamente e dizia, finalmente, "Bom dia".

Inventor de Histórias

Essa é a história de um contador de histórias. Aliás, não de um contador, mas de um inventor. Acho que é o nome que mais lhe convém, pois no fundo ele não conta as suas histórias para ninguém além de si mesmo, já que no meio do próprio processo criativo, ele inventa, cria, ensaia e conta, num grande ato de improvisação que tudo o que possui de imediato, possui também de efêmero. Sua criação está sempre envolta e sujeita a essa fugacidade, nesse jogo do existente e do escondido, da criatura que ganha uma outra vida, essa quase onírica, mas como tudo aquilo que é sonhado, encontra em si mesmo uma realidade própria, e sem dúvida real, mas que nunca saberá disso, pois isso sequer lhe será contado no período da sua vida regular, a que ele pensa ser a única. Possivelmente também não se trata de uma história, em seu sentido mais tradicional, mas talvez de um pequeno conto, ou simples remarcas sobre uma vida paradoxalmente pacata e vívida, emocionante e emocionada por essas pequenas outras histórias que cria, dá ser e com as quais quase sempre se inunda. Esse garoto, o nosso inventor de histórias, caminha por aí, como qualquer outro, como qualquer um, como um qualquer. Sua diferença, se é que há algo que podemos chamar de diferença individual, aquilo que o distingue dos demais indivíduos da sua mesma espécie, é que cada um dos seus olhares está carregado. Para tudo onde olha, tudo onde pousa o seu olhar curioso e cuidadoso, ele projeta, ele faz pousar uma pequena e nova história. Projetar também mal traduz o que efetivamente se passa, que é como uma fusão entre o brilho do olhar e o brilho do próprio olhado, que convergem e fazem nascer algo novo, como todos os bons encontros devem fazer surgir. Duas pessoas andando lado a lado por um caminho logo se tornam um quase casal de mãos dadas, a primeira, eternamente apaixonada, sempre escuta a outra quando fala com um carinho no olhar e de vez em quando se perde e se esquece de prestar atenção simplesmente na completa inebriação da sensação do toque da outra mão; a outra calmamente valorizando a primeira, abrindo o seu coração e contando para a mão amiga tudo aquilo que lhe aflige, lhe assusta e lhe faz sorrir, encontrando naquele momento uma cumplicidade quase egoísta e míope, mas que contudo a faz sentir-se mais completa que há alguns momentos antes e alguns depois. Um mero banco se torna o depositário e relicário das lindas flores amarelas de uma frondosa árvore imaginária que lhe faz sombra e lhe fornece tais detalhes de beleza sem o qual ele não seria o mesmo, e que o diferencia à vista de qualquer ser vivo, já que, sem esses toques florais, nenhum deles pararia à sua presença e apreciaria, aqueles que podem, pensando, também aqueles que podem, “que bela cena”! Um simples andarilho, como o nosso inventor, um caro passante que lhe fez a generosidade de lhe dirigir um olhar, esse mesmo olhar, se torna então o perdido esperado por todos os tempos, um especial completamente desconhecido, mas cuja falta se fazia presente na ausência, que nesses breves segundos parece fazer desaparecer, para sempre. Como vemos, o nosso inventor inventa histórias até envolvendo ele mesmo, que se torna um personagem fantástico e com uma história que não é a dele, mas poderia ser e que agora, enquanto durar, simplesmente é. E essa realidade, esse sentimento, esse sonho, essa utopia, essa vivência, por que não, essa experiência, essa história, é uma das coisas que o faz sorrir mais sinceramente, e isso o faz tão bem, mas tão bem, que ele jurou que um dia escreveria uma história sobre esses sorrisos tão sinceros.