Lembranças (VIII)

“”Eu não sei se te amo mais...”, foram as palavras escolhidas por ele ao que deixava livre a minha mão que até então trazia entre seus dedos. “..., quero dizer, eu sei que te amo, mas eu não te amo mais.” Ele completou, assim que pôde perceber que não obteve resposta. Interrompi ali nosso caminhar e permaneci por momentos inerte, olhando fixamente para frente, como se fitasse o futuro, o infinito, simplesmente por não poder encarar o presente que se colocava ali do meu lado. Silêncio. Essa inação que se manteve, quase por inércia, durante vários instantes, talvez por falta de uma coragem e um ímpeto mínimos para que se irrompesse algo naquele retrato da estática. Estávamos mais uma vez no exato local onde havíamos nos conhecido, passando bem à frente da mais bela obra da já descrita exposição. Havia exatamente um ano desde lá e o meu plano inicial era retornar ali para sentarmos no mesmo banco, mas a providência parecia que preferira que ficássemos sobre os nossos pés, tensos e com os músculos tesos, na medida em que a leve brisa que passava se transformava no volume mais denso e carregado que se poderia imaginar. Era, como obviamente é possível se deduzir, outono, e o dia se mostrava ironicamente tão belo e ameno como da primeira vez. Passara pela minha cabeça até fazer um pequeno piquenique comemorativo e essa idéia que já havia me feito sorrir nas diversas horas que me empenhei no seu planejamento, ali me trazia um aperto onde dizem que se situa o coração e um embrulho mais embaixo que me fazia repugnar qualquer tipo de nutrição. Ainda posso sentir o mesmo gosto, a mesma dor, a mesma repulsa ainda agora, enquanto ponho em palavras vazias toda essa sequência de sentimentos que me são tão tão caras. Fui eu que dei o próximo passo, e me coloquei de frente para ele, olhando no fundo daquelas íris que tanto conhecia e que tanto visitei durante todo aquele tempo. Sem sorrisos, sem carinhos, sem defesas, perguntei: “E agora?”. Foi o seu turno de não-reação, a não ser pelas lágrimas que começavam a surgir e deixar seus olhos ainda mais resplandecentes, ainda que turvos, ainda que tristes. Então ele se projetou e procurou novamente a minha mão, mas eu a fiz recuar. Ele permaneceu imóvel, suas sombrancelhas se arquearam, como num pedido de ajuda desesperado que acabara de lhe ser recusado, e em seguida não pôde conter a chuva que se armara em seu semblante pouco antes. Deu um passo súbito para frente e me abraçou. Deitou sua cabeça no meu peito enquanto me apertava forte e soluçava audivelmente. Nenhuma potencialidade motora minha se atualizou e era como se até os meus sentimentos mudos tivessem parado de bater. Estava tão perto que podia sentir toda a sua tristeza, toda a sua dor, todo o seu desespero. Seu corpo todo tremia, sua alma toda fremia e todo o seu ser temia o momento no qual aquele momento se acabaria. Uma eternidade passada, ele levantou seu rosto e me pediu um último beijo. Completamente vazio, me inclinei um pouco para frente e me uni a ele daquela última vez, e foi como se tudo aquilo no universo que se é possível sentir me completasse na fração de segundo mais instantânea que se pode experimentar nessa existência. Incapaz de suportar aquilo, me virei e fugi, correndo, de uma realidade ali que jamais seria minha novamente. Realidade essa que deixei naquele dia para trás e que nunca mais me foi devolvida. Mesmo que eu assim tente, me esforce e me desgaste, rabiscando e rascunhando essas minhas mais tristes, estranhas e ricas “lembranças””.

Canção de Inverno (I)

A doce melodia ecoava por todo o cômodo. O arco escorregava pelas cordas produzindo aquele som único e belo. As mãos alvas e habilidosas manipulavam o instrumento com destreza e experiência, e tirava dele notas harmônicas que entorpeciam o ambiente. O sorriso sereno e os olhos cerrados do violinista traziam uma sensação bela de tranqüilidade e felicidade. Seu corpo acompanhava levemente os movimentos da música. Uma cena muito bela de se assistir.
A neve acusava uma tempestade fora da casa. A janela tremia ao que os flocos a atingiam incessantemente. O frio era muito nessa época do ano, o que obrigava o loirinho a vestir um rico casaco marrom, que mais lhe caía como um sobre tudo e o agasalhava com o pêlo com que era confeccionado. A pelagem alva lhe confortava os pescoços, única área onde estava presente na peça. Sim, estava realmente muito bonito. O inverno era embalado pela melodia que escapava das cordas e driblava o frio que se situava mesmo dentro de casa e estremecia os ossos dos que não estavam agasalhados.

A melodia terminou e os olhos verdes se revelaram por trás das pálpebras que se abriram lentamente após o término do pequeno concerto. O violinista apartou o instrumento do pescoço com delicadeza e se curvou com classe, agradecendo o público, ainda sorrindo.
O único detalhe é que não havia público algum. Os sussurros eram do vento do lado de fora e os aplausos eram o barulho da neve atingindo o vidro da janela.