“Naquele dia, eu havia sido convidado por uma amiga a ir ao museu, e como de fato era um dos meus programas favoritos, de prontidão, aceitei. Era um daqueles dias exemplares do outono por aqui, havia uma fina camada de folhas secas sobre o gramado do jardim, o sol brilhava forte, mas não o essencial para nos esquentar de verdade, e toda a paisagem compunha o que poderíamos chamar de um belo dia. Lembro de estar sentado no pequeno banco de pedra na frente da entrada principal, ouvindo um pouco de música, e ignorando completamente o quanto um dia inocente daqueles poderia afetar a minha vida, ao que a esperava, atrasada como sempre. Foi nesse meio do curso natural que ao qual chamamos tempo que eu o vi pela primeira vez. Por acaso, eu estava olhando desinteressadamente ao meu redor ao mesmo tempo que ele levantava seu olhar do pequeno livro por alguns instantes, como para descansar, e, por uma fração de segundo, os nossos olhares se cruzaram. Eu acho que é para denominar esses momentos altamente significativos onde a chance do não-acontecimento é infinitamente superior que a do fato ter efetivamente acontecido que criamos a palavra coincidência. E foi nessa coincidência, ou para ela, que ele esboçou um sorriso e voltou ao seu texto. Não sei como teria sido se ele não tivesse sorrido, mas foi aquele sorriso que me chamou a atenção. Acredito que eu nunca vi, antes ou mesmo nunca depois, um sorriso que me intrigasse tanto assim. Naquele momento era como se eu tivesse vivenciado uma experiência estética de grau mui mais elevado que com qualquer obra que viria a observar lá dentro. Sei que enquanto ainda tentava decifrar aquele sorriso quase disfarçado quase proposital, minha espera chegou ao fim. A fim de manter a ambiguidade do último enunciado, continuo contando que durante toda a visita senti que ele, desacompanhado, me acompanhava com aquele sorriso e o olhar quase tímido, e eu pouco ou nada conseguia me concentrar nas esculturas, pinturas e fotografias tão belas que o museu, com tanto orgulho, ostentava. Foi quando, já no fim da visita, eu percebi que ele se afastou, sentando num canto, num pequeno banco estrategicamente colocado na borda de um dos vistosos jardins que circundava a obra mais famosa do local, para que a apreciação mais perfeita fosse possível. Quase magicamente, o local estava, naquela hora, deserto. Pedi licença à minha amiga, e fui, quase sem pensar, pelo mesmo caminho, sabendo só inconscientemente que ia, na verdade, ao seu encontro. Fiquei um bom tempo, de pé, apenas observando, enquanto ele olhava para cima e contemplava, absorto, mudo e inerte, aquela obra que havia contribuído com a humanidade com muito mais que algumas páginas que lhe são sempre dedicadas nos livros de história da arte. Mais uma vez, sem compreender o porquê, fui pego desprevenido quando, serenamente, mas na verdade contendo um turbilhão dentro de si, que ele voltou os seus olhos para mim, agora sem disfarce, sem sorriso, só com o seu brilho natural que parecia lhe emanar naquele momento. “Eram seus olhos” ele diria, muito tempo depois, quando eu o narrava o acontecimento, como agora, do meu ponto de vista. Sem mais palavras, talvez porque elas não eram necessárias, talvez porque eu não as tinha a altura na situação, caminhei até ele, dei-lhe um beijo suave, sentei-me ao seu lado e disse: “Boa tarde”. “Boa tarde”, ele me respondeu, tomando minha mão na sua pela primeira vez".
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