Essa é a história de um contador de histórias. Aliás, não de um contador, mas de um inventor. Acho que é o nome que mais lhe convém, pois no fundo ele não conta as suas histórias para ninguém além de si mesmo, já que no meio do próprio processo criativo, ele inventa, cria, ensaia e conta, num grande ato de improvisação que tudo o que possui de imediato, possui também de efêmero. Sua criação está sempre envolta e sujeita a essa fugacidade, nesse jogo do existente e do escondido, da criatura que ganha uma outra vida, essa quase onírica, mas como tudo aquilo que é sonhado, encontra em si mesmo uma realidade própria, e sem dúvida real, mas que nunca saberá disso, pois isso sequer lhe será contado no período da sua vida regular, a que ele pensa ser a única. Possivelmente também não se trata de uma história, em seu sentido mais tradicional, mas talvez de um pequeno conto, ou simples remarcas sobre uma vida paradoxalmente pacata e vívida, emocionante e emocionada por essas pequenas outras histórias que cria, dá ser e com as quais quase sempre se inunda. Esse garoto, o nosso inventor de histórias, caminha por aí, como qualquer outro, como qualquer um, como um qualquer. Sua diferença, se é que há algo que podemos chamar de diferença individual, aquilo que o distingue dos demais indivíduos da sua mesma espécie, é que cada um dos seus olhares está carregado. Para tudo onde olha, tudo onde pousa o seu olhar curioso e cuidadoso, ele projeta, ele faz pousar uma pequena e nova história. Projetar também mal traduz o que efetivamente se passa, que é como uma fusão entre o brilho do olhar e o brilho do próprio olhado, que convergem e fazem nascer algo novo, como todos os bons encontros devem fazer surgir. Duas pessoas andando lado a lado por um caminho logo se tornam um quase casal de mãos dadas, a primeira, eternamente apaixonada, sempre escuta a outra quando fala com um carinho no olhar e de vez em quando se perde e se esquece de prestar atenção simplesmente na completa inebriação da sensação do toque da outra mão; a outra calmamente valorizando a primeira, abrindo o seu coração e contando para a mão amiga tudo aquilo que lhe aflige, lhe assusta e lhe faz sorrir, encontrando naquele momento uma cumplicidade quase egoísta e míope, mas que contudo a faz sentir-se mais completa que há alguns momentos antes e alguns depois. Um mero banco se torna o depositário e relicário das lindas flores amarelas de uma frondosa árvore imaginária que lhe faz sombra e lhe fornece tais detalhes de beleza sem o qual ele não seria o mesmo, e que o diferencia à vista de qualquer ser vivo, já que, sem esses toques florais, nenhum deles pararia à sua presença e apreciaria, aqueles que podem, pensando, também aqueles que podem, “que bela cena”! Um simples andarilho, como o nosso inventor, um caro passante que lhe fez a generosidade de lhe dirigir um olhar, esse mesmo olhar, se torna então o perdido esperado por todos os tempos, um especial completamente desconhecido, mas cuja falta se fazia presente na ausência, que nesses breves segundos parece fazer desaparecer, para sempre. Como vemos, o nosso inventor inventa histórias até envolvendo ele mesmo, que se torna um personagem fantástico e com uma história que não é a dele, mas poderia ser e que agora, enquanto durar, simplesmente é. E essa realidade, esse sentimento, esse sonho, essa utopia, essa vivência, por que não, essa experiência, essa história, é uma das coisas que o faz sorrir mais sinceramente, e isso o faz tão bem, mas tão bem, que ele jurou que um dia escreveria uma história sobre esses sorrisos tão sinceros.
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Um comentário:
Não gostei do texto, mas eu fiquei afim de postar. Não vou ficar esperando pra postar a versão definitiva. Quando eu tomar vergonha na cara e resolver melhorá-lo, eu deleto e posto a nova versão.
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