Carta a um amor antigo

Belo Horizonte, 15 de fevereiro de 2009.

Querido amor,
Se essa carta chegou até as suas mãos, você deve ser uma das seis pessoas mais importantes da minha vida até hoje. Com certeza, você foi uma das pessoas com quem eu mais aprendi e cresci, mesmo que talvez você não saiba disso. Foi na sua particularidade de ser quem você é e de ter vivido um amor incomparável é que me fez te ver da forma como eu o vejo e que fez você conquistar um pequeno lugar no meu coração.
Eu queria que você soubesse que eu nunca deixei de te amar, e acho que nem conseguiria, já que te amar faz e sempre fez parte de mim desde que você apareceu na minha vida. Você me ajudou a ser e a me formar como eu sou, e acredito que sempre estará dentro de mim. Quero que você saiba também que sempre serei fiel ao nosso amor, mesmo que, em páginas, a nossa história tenha sido limitada por algum motivo. Uma história que só nós sabemos o quão linda foi e que eu tenho extremo orgulho de ser co-autor.

Uma história que, independentemente das circunstâncias, eu irei para sempre me lembrar...
Seja na certeza que sempre vai haver alguém que vai cuidar de mim, mesmo quando eu não precisar, e que vai fazer questão de me acompanhar em tudo aquilo que for mais ou até menos importante para mim, só para sorrir quando meus olhos brilharem;
Seja no carinho de uma rua abandonada no alto da cidade, onde nos contamos as nossas histórias, deitados um no colo do outro, num amor de verão e numa flor ocasional no fim da noite, entregue ante a surpresa de um sorriso;
Seja no estender da própria roupa na areia da praia para que nós pudéssemos sentar sob as estrelas, e eu então me sentir amado pela primeira vez ao ser abraçado fortemente ao entregar os pequenos colares com os nossos nomes gravados;
Seja em diversas ligações feitas de muito longe, gastando diversos cartões, numa pontualidade quase religiosa, e a presença marcada em várias das competições mais estúpidas, mas que podiam significar o mundo para nós, regada pelas noites acordadas pelo motivo mais estúpido, sempre compensadas por longas manhãs de sono que descansavam para mais;
Seja nas mais acaloradas discussões sobre o mundo, a vida e ainda nós mesmos, que mesmo tomando dimensões às vezes desproporcionais ao que esperávamos (e às vezes reações que não gostaríamos de ter tido), que no fim de tudo poderiam terminar com os maiores momentos de cumplicidade, desabafo, apoio e auto-conhecimento do mundo, onde um olhar, um abraço, ou um dos diversos presentes inventados, improvisados, comprados ou vivenciados já mostrava valer a pena;
Seja no beijo roubado numa esquina, já altas horas da noite, ou no sorriso sem-graça trocado em olhares mais do que cúmplices, naquele que acreditávamos ser o nosso 'amor-proibido', mas que simplesmente parecia certo e perfeito nas várias noites e 'prestações até se perder de vista'.

Por isso e, claro, por muito mais, eu queria simplesmente agradecer, por você ser tão maravilhoso e ter me permitido te amar, enquanto construíamos a nossa história da forma mais perfeita que poderíamos: juntos.

Obrigado,
Ma, Mah, Theu, Theus, Má-theus.

Letícia, não Caio

Contra qualquer simbologia (ou talvez mais a favor que à primeira vista) que eu poderia utilizar para justificar esse momento alego: quero Letícia, não Caio. Tenho necessidade sim de expurgar tudo aquilo que carrego dentro de mim e que pouco quero, e que me faz mal e me corrói aos poucos, uma necessidade de purificação quase catártica que me traz aqui, para esse texto, para esse momento. Mas não aguento mais Caio, não aguento mais o profundo, o submerso, o pútrido, o indecente, o nojento. O fundo do mar não tem mais que ser escuro. Por que não um processo de cura, de revitalização, de emersão que seja tingido dos mais claros azuis? O azul por si mesmo já contém tudo que uma semiótica das tonalidades poderia me oferecer, independentemente de sua tonalidade. Reinvindico, nesse instante, mais Letícia, tentando, quem sabe, inaugurar na própria reinvindicação até o primeiro passo vermelho-escuro contido nela própria (Desculpe-me pelo roubo de imagens, Caio). Contra todo o passado, contra toda a nostalgia, contra todo o desespero que se dissolve somente para se difundir e tomar conta de tudo ao recurso do que já foi ser, escrevo novamente. Aceito tanto quanto inauguro a mudança, mas não a mesma mudança, proponho a mim mesmo a mudança da própria mudança e espero com isso achar um pouco de esperança. Entre o tempo inerte e a atitude pretensiosa, tento encontrar o agora exatamente no entremeio, um pouco ainda sem-sentido, com pouca convicção até, mais caótico que nunca talvez. Me vejo então por fim, de volta a Caio, num movimento próximo do de ontem, do do ontem, mas contudo, contrariando Caio no seu último reduto: o meu caos, nesse momento, não é compreensão: é, mesmo que tentativa, mesmo que do mesmo, reinvenção.

O Meu Novo Novo Amor

O meu novo novo amor é um amor de carinhos. Um amor atencioso, respeitoso, tenro e suave. Um amor de abraços, olhares e beijinhos, onde poucas palavras precisam ser ditas, ouvidas ou discutidas. O meu novo novo amor é um amor jovem, por vezes até ingênuo, onde a esperança vale mais que mil medos e a saudade é o bastante para que não haja problemas. O meu novo novo amor é um amor de muitas flores e alguns frutos, um amor onde o romance da primavera e a sobriedade do outono se casam de forma tão fantástica que o sonho e a espera fazem o vir-a-ser do florecer o momento mais especial do ano. Antes de magnitude, ele nos traz a sua mais tranqüila beleza, pintada pelos olhos mais sinceros e serenos de quem verdadeiramente o vê. O meu novo novo amor é um amor, por que não, sereno. Um amor de águas rasas, onde se esconde o tesouro das conchas raras que a onda ameaça levar a cada momento do frágil castelo que construímos. O meu mais novo amor é um amor delicado. O meu mais novo amor é um amor dedicado. É um amor que esconde, espera, anseia, aguarda e caminha. É um amor que, como muitos outros, está fadado a terminar, mas ao contrário da maioria, tenho certeza, dele, nenhum dos dois se esquecerá.

Lembranças (VI)

"Estávamos quietos, como aqueles que nada querem pois acham que já possuem tudo o que mais lhes importa, abraçados, assistindo a um filme qualquer que nem me lembro mais. Estávamos em casa, a luz do quarto estava apagada e a única fonte de luminosidade disponível era a do pequeno aparelho de televisão. Era um filme de terror ou suspense, desses com música tensa e de dar susto. Muito susto. Como sempre fui particularmente frágil para, e mesmo muito muito suscetível a levar sustos, me sobressaltava quase que continuamente ao passo que ele mal piscava perante as mesmas cenas. Foi quando, muito inesperadamente, até muito mais do que nos outros momentos, algo drástico aconteceu muito subitamente no filme, e no sobressalto soltei um grito um pouco agudo e escondi o meu rosto. Mesmo nos filmes a gente sempre espera que haja algo, nem que seja uma musiquinha que, mesmo muito tensa, nos ajuda a avisar que o susto está por vir. De qualquer maneira, eu gritei. Ele riu. Não sei exatamente o porquê, mas naquele momento, aquela risada, não era exatamente uma reação que eu podia esperar dele. Aliás, não era a reação que eu queria esperar, mas como até então o que eu esperava era igual ao que eu queria esperar, não consegui fazer qualquer tipo de diferenciação naquele momento. De qualquer maneira, acabei por agir também de forma inesperada: tentei me mostrar sério, para que ele percebesse o tom da questão, e disse: “Por que você está rindo? Não teve a mínima graça!” Ele se pôs a rir mais ainda, parecendo que a minha revolta lhe era ainda mais engraçada que o meu susto, e respondeu: “Claro que tem, e, além do mais, é uma gracinha você assustando com um filminho bobo desses” “Filminho bobo?, perguntei, Por mais bobo que seja foi com ele que eu assustei. Agora o quê? Vai dizer que o meu susto é bobo também?”. Cheguei até a aumentar um pouco a altura da minha voz para que ele percebesse que eu não estava para brincadeiras e estava mesmo me irritando. Isso pareceu até assustá-lo um pouco, tanto que recuou quando eu me desvencilhei do abraço e ainda tentou me dizer: “Não, não é nada disso... inclusive se eu dei a entender isso, me descul...”, mas eu o interrompi, não dando importância, aliás, sem que, pela raiva que me crescia, eu sequer pudesse dar importância o que ele pudesse tentar me dizer: “Aposto que você também nem se importa se, para mim, o filme é bobo ou não. Nem se o susto que eu tomo é de verdade ou não. Você sabe muito bem que uma das coisas que eu mais detesto é levar sustos, e você ainda ri de mim. Pois é, acho que o bobo aqui nem sou eu, ou pior, deve ser eu mesmo...” E deixei o quarto e um garoto atordoado e um pouco sem chão ainda deitado no chão."