Ele se levantou e, naquele momento, foi escovar os dentes. Era o mais simples e inesperado que se podia fazer então. Contudo, não pensou duas vezes. Seu coração havia sido esmurrado, dilacerado, rompido, maltratado, cuspido e destruído de tal maneira, que, de uma certa maneira, não havia outra possibilidade de ação a não ser aquela. Ele poderia sentir como se nada mais na existência fazia sentido e que seu futuro estaria para sempre comprometido por aquele mero momento. Faria sentido que ele se destronasse, chorasse em plenos soluços, jogasse tudo ao alto e ao baixo, gritasse até se sentir incapaz, e então se resgardasse, mas não fez nada disso. Ao contrário, ele se levantou e, naquele momento, foi escovar os dentes. Não, escovar os dentes não foi uma metáfora, não. Também não foi algo que ele faria completamente diferente da maneira como faz todos os dias. Ele simplesmente se levantou, e foi escovar os dentes. A dor que poderia estar sentindo, que deveria estar sentindo, simplesmente haveria de dar lugar ao momento posterior. Se parasse para pensar, provavelmente chegaria à conclusão que nunca fora atingido daquela maneira, e que nenhum sentimento havia doído nem haveria de doer tanto em seus breves anos. Na verdade, nunca algo teria um potencial tão transformador, tão destruidor, tão plutoniano, tão mortal se considerássemos todos os acontecimentos temporais da sua finiture. No entanto, ele agiu da maneira mais simples e inesperada que ele mesmo poderia se prever. Ele abriu um parênteses e, simples assim, foi escovar os dentes. Aquilo não significou nada mais do que poderia e deveria ter significado. Foi simplesmente uma ação. Foi a sua ação naquele momento, e por isso, para ele, por ele, e acima dele, ele se levantou e, naquele momento, foi escovar os dentes.
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