Canção de Inverno (I)

A doce melodia ecoava por todo o cômodo. O arco escorregava pelas cordas produzindo aquele som único e belo. As mãos alvas e habilidosas manipulavam o instrumento com destreza e experiência, e tirava dele notas harmônicas que entorpeciam o ambiente. O sorriso sereno e os olhos cerrados do violinista traziam uma sensação bela de tranqüilidade e felicidade. Seu corpo acompanhava levemente os movimentos da música. Uma cena muito bela de se assistir.
A neve acusava uma tempestade fora da casa. A janela tremia ao que os flocos a atingiam incessantemente. O frio era muito nessa época do ano, o que obrigava o loirinho a vestir um rico casaco marrom, que mais lhe caía como um sobre tudo e o agasalhava com o pêlo com que era confeccionado. A pelagem alva lhe confortava os pescoços, única área onde estava presente na peça. Sim, estava realmente muito bonito. O inverno era embalado pela melodia que escapava das cordas e driblava o frio que se situava mesmo dentro de casa e estremecia os ossos dos que não estavam agasalhados.

A melodia terminou e os olhos verdes se revelaram por trás das pálpebras que se abriram lentamente após o término do pequeno concerto. O violinista apartou o instrumento do pescoço com delicadeza e se curvou com classe, agradecendo o público, ainda sorrindo.
O único detalhe é que não havia público algum. Os sussurros eram do vento do lado de fora e os aplausos eram o barulho da neve atingindo o vidro da janela.

Um comentário:

Rafael Sandim disse...

Belo texto, triste e belo.