Ensaio eleata sobre o amor

Quando menos percebi, estava pensando o amor. Comecei acreditando que perdi o chão. O amor havia perdido sua dimensão mágica, mítica, perfeita. De repente, as cortinas se fechavam, o espetáculo terminava e não havia nenhum aplauso. Brinquei não me importar, fingir que cresci, mudei, segui e deixei, mas acho que me é impossível me enganar. Me alimentava daquilo, vivia daquela esperança, e vê-la morrer, era mais do que estar morta, mas me ver morrer, agonizar, pedir ajuda e ninguém mais ver. Comecei por poucos versos, um ou dois, com pouca conexão, mas eram tudo para mim. Um desabafo, um choro, uma esperança. De repente, estavam lá, imortalizados. Nascidos de mim e ali, perfeitos. Quando menos percebi, não podia mais parar. Era um vício, uma droga, um nirvana orgásmico que eu simplesmente não mais poderia viver sem. Uma ascese do meu sofrimento e da minha realidade que me punha a andar em nuvens, noutro lugar onde o tempo não passa nem pára, e o repouso e a cinética se fundiam num só. Criava sonhos, moldava personagens, dançava entre os sentimentos, engrandecia e diminuía idéias, pessoas e números, brincava com rimas e era, no meu próprio mundo, algo como uma deusa. Percebi, muito depois, que estava a representar. Ensaiava o perfeito, o mítico, o divino. E então, ali estava ele. Eu ensaiava o amor. E era ele que me punha a fazê-lo. Para que eu provasse a mim mesma que ele estava ali, dentro e fora de mim. Meu chão estava perdido, as cortinas não se fecharam e os aplausos ressoavam sonoros. O espetáculo estava longe do fim. Era eterno. Não fui eu quem o havia feito nascer, e nem por mim ele se faria morto. Se ele ignorava essas duas dimensões, burra fui eu de pensar na existência delas e, ainda por cima, tendo-me como testemunha. E era por isso que eu escrevia, por isso que eu versava. Porque alguém, em algum lugar, em alguma era, de alguma forma, estava a torná-lo real, porque assim ele o obrigava. Nós os tornávamos real, de nosso jeito único, motivados simplesmente pela sua existência, que por sua vez era, por aquilo que afirmávamos. Quero dizer, não era, amava. O amor ama eterno, sem início e sem fim; sem antes e sem depois; sem falhas e sem diferenças; sem mito e sem razão; sem nada além do seu amor. E o amor ama, porque a falta dele não o faz. E quando menos percebi, estava pensando o amor. Quando menos percebi, estava amando o amor.

Alternâncias

Se eu pudesse lhe dizer com uma palavra o que eu sinto agora, teria apenas uma certeza: haverei de discordar mais tarde. É simples assim, e tão complicado que uma única palavra estaria (possivelmente, pois senão novamente entraria em contradição, caso contasse com a certeza) fadada à posterior refutação. Seria uma insinceridade, ou até pior, seria de má-fé da minha parte não admiti-lo. O desequilíbrio entre a auto-suficiência da plenitude de afirmar a felicidade dependente apenas de um individual e particular estado de espírito e a carência máxima do desespero contido da necessidade de um abraço nunca talvez me foi tão evidente. A batida que alterna entre o passado e o futuro, a nostalgia e a esperança está descompassada, e o atual, o presente, o personificado aqui e agora se perde nessa dança desritmada. E não menos importante que as outras, se mostra mais uma vez minha querida oposição - o abraço da tensão da intensidade me envolve e abarca todo o meu ser, forçando a minha alma à mais completa e baixa submissão e mesmo que por um único instante anseia, mesmo escondido, pelo beijo do alívio, se degladia com o seu imponente recém-revelado fantasma da pureza, do desejo mais belo e doce que me assombra com o uivo de maior suavidade que se pode imaginar. Nessa batalha se apoiam todos os meus desejos, pensamentos e ações, e aquilo que me guia, minha mão condutora, treme, tropeça, mal faz mais que balbuciar uma ordem, tão logo quanto me ordena a abandoná-la e quando muito, consegue, depois de muitos rounds, chegar à sua primeira quase certeza: a verdade de que, defronte a constatação dessa constante alternância de pretensos vencedores, o juiz é levado a querer, despretensiosamente, declarar o empate.