Estranho ser é este, o homem

Estranho ser é este, o homem. À medida que cresce, aprende a sofrer.

A cada aniversário arruma motivos para desconfiar e chama isso de maturidade. Justifica, então, o seu egoísmo, diz estar aprendendo a crescer e se perde numa (i)lógica circularidade viciosa. A partir daí, crê que deve nivelar e controlar suas relações; se julga superior e exterior a elas, se afastando cada vez mais. Logo, logo, se torna sozinho e antes que perceba, em sua louca racionalidade de argumentação, isso se torna uma premissa óbvia, primeira, auto-evidente. E nessa hora, ele inventa a saudade. E sofre. Ensina a si mesmo a sofrer, em busca de uma eterna felicidade. Em seu emaranhado de razões, a personificação da racionalidade esquecer de viver.

Estranho ser é este, o homem. À medida que cresce aprende a morrer.

Paleta de Cores

Parto sempre das cores do outono. É como se para mim essa fosse sempre a primeira estação, o início, o recomeço. Sinto que de vez em quando eu me entrego somente aos momentos supostamente tristes. São aqueles que de alguma forma mais importam pra mim e mais significam, talvez porque quando feliz eu não sinta necessidade de escrever. É uma pena. Da mesma forma queria poder colorir as cores finas e suaves da esperança e do amor, com a mesma pena que o triste e o sereno melancólico me trazem às letras. Às vezes eu acho que isso simplesmente não é possível. Não sei se consigo pintar um sorriso com o mesmo peso ou leveza com que aprendi a fazê-lo com as lágrimas. Estas me trazem com certeza aqui, ele, contudo, já nem tanto. É uma pena, deveras. Digo isso não com remorso ou alguma forma de conformismo. Talvez eu tente a partir de agora que minha paleta tenha tintas mais coloridas e calmas; um sereno contente, talvez. Será? Quem sabe assim eu não faça mais jus ao mundo no qual escolhi viver (ou escolheram que eu vivesse), pois lá, o amarelo suave da esperança povoa muito mais que o cinza desbotado do desistido.

O triste, o órfão e o vidente

Esse é um breve comentário sobre a vida de três personagens que absolutamente não têm qualquer conexão direta entre si. Se é que personagens efetivamente têm vidas. Bem, a história começa assim: eles não se conhecem, nunca se viram, se se viram, com certeza não se lembram disso, e mais importante que qualquer outro dado: definitivamente, eles não são importantes um para o outro. Sabe? Aquela não-relação onde mesmo que as pessoas se cruzem por algum motivo, aquilo é simplesmente irrelevante pra vida de cada uma delas? Pois é, exatamente isso. O primeiro era uma personagem que havia se esquecido de ser feliz. Não se tem certeza se ele havia se esquecido de ser feliz, ou se esquecido de como ser feliz, de qualquer maneira, uma coisa é certa: o predicado de feliz não lhe convinha. Não que isso fosse, para ele, um problema - como ele mesmo diz: algumas pessoas simplesmente não estão aqui para serem felizes. Mas tudo bem, vejamos o nosso segundo sujeito: o órfão. Este, como o próprio nome nos informa, foi privado dos pais, imaginamos que mais cedo do que deveria, senão não seria digno desse nome, acredito. Acontece que isso aconteceu de uma maneira, se me perdoa o paradoxo, gradual e abrupta ao mesmo tempo. De uma forma ou de outra, ele estava re-aprendendo a viver. A viver num mundo onde pouco se pode deixar aos cargos das mãos do destino, que, segundo o nosso segundo personagem, estão prestes a puxar-nos os tapetes. É difícil aprender o exato ponto entre o tomar a responsabilidade para si ou deixá-la para a ordem cósmica dos acontecimentos fortuitos. Flutuações são perdoáveis, sempre. A terceira personagem nos é bastante peculiar. Sua função diz mais sobre ela que qualquer outro atributo seu: ela é o vidente. Com um estranho dom de ver além do que os mortais míopes, ele tem consciência do qual especial é. O problema é que isso o faz se sentir, ao mesmo tempo sozinho, ao mesmo tempo incapaz. Incapaz de jogar conforme as regras do jogo, que são determinadas não para ele, mas para todos os outros que não usam óculos. Sem seguir as regras, por saber mais, ele não sabe se será capaz de ganhar, e mais importante, de se realizar como um mero míope. Porque apesar de ver, ele ainda é um pobre miserável homem, como todos os outros. Enfim.

Sobre a vida de cada um deles, são necessárias apenas algumas poucas considerações, que não levarão muito tempo. O triste segue a vida tristemente, com objetivos de vida completamente diferentes dos outros, que procuram sempre ser felizes sem se perguntar o porquê disso. O órfão, como disse, está tentando se encontrar no mundo, procura um emprego, um estudo, uma viagem, alguns amigos, uma namorada ou um namorado (parece que ainda não se sabe), um hobby, um bom livro, e mais do que tudo, algo ao qual ele possa chamar de família. Por fim, o vidente se fecha cada vez mais dentro de si mesmo, fingindo para os outros uma vida que não é a sua, já que a sua tem uma especialidade que ele mesmo tem dúvidas se é um dom ou um fardo a ser empurrado sem nunca poder ser superado. Segue como os outros, sem, nessa outra vida, ser nada de distinto ou ao menos se preocupando para não agir de forma distinta do resto, sempre com muito medo.

Acredito que está se perguntando por que tracei todo esse panorama dessas três personagens, e de uma certa forma curioso para saber o algo escondido, o suspense, o climax, aquilo que fará, no fim de tudo, esse pequeno comentário ter algum sentido, ou pelo menos, alguma coesão que lhe dê a coerência necessária de um texto a ser levado a sério. Contudo, leitor, sinto desapontar-lhe, mas não serei capaz de lhe dar algo parecido com isso. Tudo isso aqui, todas as essas linhas desconexas de caminhos, não-caminhos e quase-caminhos, não têm outra função que chegar a esse fim, esse único elo de ligação simples e bobo que os fazem um só, e tenta imputar nessas pobres histórias um pobre sentido: aquilo que alguns chamam de um narrador.

Reflexo-reflexos

Reflexos, reflexos, reflexos. Imagens de um mundo de nada que representa o já representado. Dançando atrás de espelhos, sempre fixas, sempre fieis, sempre iguais. Qual é a graça de viver num mundo condenado às leis da física? Gravidade, Relatividade, Óptica... Óptica para quê? 'O essencial é invisível aos olhos'. A criação nada mais pode ser que o nascer uma luz etérea e efêmera para nos ajudar a procurar o que em nós é mais que sensível. O poder de ver além daquilo que a luz nos traz, além dos reflexos empoeirados, dogmáticos e terrívelmente físicos. O além é a única justificativa aceitável da existência de um mero reflexo-reflexo. Afinal, qual é a graça de viver num mundo condenado às leis da física?