Lembranças (VI)

"Estávamos quietos, como aqueles que nada querem pois acham que já possuem tudo o que mais lhes importa, abraçados, assistindo a um filme qualquer que nem me lembro mais. Estávamos em casa, a luz do quarto estava apagada e a única fonte de luminosidade disponível era a do pequeno aparelho de televisão. Era um filme de terror ou suspense, desses com música tensa e de dar susto. Muito susto. Como sempre fui particularmente frágil para, e mesmo muito muito suscetível a levar sustos, me sobressaltava quase que continuamente ao passo que ele mal piscava perante as mesmas cenas. Foi quando, muito inesperadamente, até muito mais do que nos outros momentos, algo drástico aconteceu muito subitamente no filme, e no sobressalto soltei um grito um pouco agudo e escondi o meu rosto. Mesmo nos filmes a gente sempre espera que haja algo, nem que seja uma musiquinha que, mesmo muito tensa, nos ajuda a avisar que o susto está por vir. De qualquer maneira, eu gritei. Ele riu. Não sei exatamente o porquê, mas naquele momento, aquela risada, não era exatamente uma reação que eu podia esperar dele. Aliás, não era a reação que eu queria esperar, mas como até então o que eu esperava era igual ao que eu queria esperar, não consegui fazer qualquer tipo de diferenciação naquele momento. De qualquer maneira, acabei por agir também de forma inesperada: tentei me mostrar sério, para que ele percebesse o tom da questão, e disse: “Por que você está rindo? Não teve a mínima graça!” Ele se pôs a rir mais ainda, parecendo que a minha revolta lhe era ainda mais engraçada que o meu susto, e respondeu: “Claro que tem, e, além do mais, é uma gracinha você assustando com um filminho bobo desses” “Filminho bobo?, perguntei, Por mais bobo que seja foi com ele que eu assustei. Agora o quê? Vai dizer que o meu susto é bobo também?”. Cheguei até a aumentar um pouco a altura da minha voz para que ele percebesse que eu não estava para brincadeiras e estava mesmo me irritando. Isso pareceu até assustá-lo um pouco, tanto que recuou quando eu me desvencilhei do abraço e ainda tentou me dizer: “Não, não é nada disso... inclusive se eu dei a entender isso, me descul...”, mas eu o interrompi, não dando importância, aliás, sem que, pela raiva que me crescia, eu sequer pudesse dar importância o que ele pudesse tentar me dizer: “Aposto que você também nem se importa se, para mim, o filme é bobo ou não. Nem se o susto que eu tomo é de verdade ou não. Você sabe muito bem que uma das coisas que eu mais detesto é levar sustos, e você ainda ri de mim. Pois é, acho que o bobo aqui nem sou eu, ou pior, deve ser eu mesmo...” E deixei o quarto e um garoto atordoado e um pouco sem chão ainda deitado no chão."

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