Esse é um breve comentário sobre a vida de três personagens que absolutamente não têm qualquer conexão direta entre si. Se é que personagens efetivamente têm vidas. Bem, a história começa assim: eles não se conhecem, nunca se viram, se se viram, com certeza não se lembram disso, e mais importante que qualquer outro dado: definitivamente, eles não são importantes um para o outro. Sabe? Aquela não-relação onde mesmo que as pessoas se cruzem por algum motivo, aquilo é simplesmente irrelevante pra vida de cada uma delas? Pois é, exatamente isso. O primeiro era uma personagem que havia se esquecido de ser feliz. Não se tem certeza se ele havia se esquecido de ser feliz, ou se esquecido de como ser feliz, de qualquer maneira, uma coisa é certa: o predicado de feliz não lhe convinha. Não que isso fosse, para ele, um problema - como ele mesmo diz: algumas pessoas simplesmente não estão aqui para serem felizes. Mas tudo bem, vejamos o nosso segundo sujeito: o órfão. Este, como o próprio nome nos informa, foi privado dos pais, imaginamos que mais cedo do que deveria, senão não seria digno desse nome, acredito. Acontece que isso aconteceu de uma maneira, se me perdoa o paradoxo, gradual e abrupta ao mesmo tempo. De uma forma ou de outra, ele estava re-aprendendo a viver. A viver num mundo onde pouco se pode deixar aos cargos das mãos do destino, que, segundo o nosso segundo personagem, estão prestes a puxar-nos os tapetes. É difícil aprender o exato ponto entre o tomar a responsabilidade para si ou deixá-la para a ordem cósmica dos acontecimentos fortuitos. Flutuações são perdoáveis, sempre. A terceira personagem nos é bastante peculiar. Sua função diz mais sobre ela que qualquer outro atributo seu: ela é o vidente. Com um estranho dom de ver além do que os mortais míopes, ele tem consciência do qual especial é. O problema é que isso o faz se sentir, ao mesmo tempo sozinho, ao mesmo tempo incapaz. Incapaz de jogar conforme as regras do jogo, que são determinadas não para ele, mas para todos os outros que não usam óculos. Sem seguir as regras, por saber mais, ele não sabe se será capaz de ganhar, e mais importante, de se realizar como um mero míope. Porque apesar de ver, ele ainda é um pobre miserável homem, como todos os outros. Enfim.
Sobre a vida de cada um deles, são necessárias apenas algumas poucas considerações, que não levarão muito tempo. O triste segue a vida tristemente, com objetivos de vida completamente diferentes dos outros, que procuram sempre ser felizes sem se perguntar o porquê disso. O órfão, como disse, está tentando se encontrar no mundo, procura um emprego, um estudo, uma viagem, alguns amigos, uma namorada ou um namorado (parece que ainda não se sabe), um hobby, um bom livro, e mais do que tudo, algo ao qual ele possa chamar de família. Por fim, o vidente se fecha cada vez mais dentro de si mesmo, fingindo para os outros uma vida que não é a sua, já que a sua tem uma especialidade que ele mesmo tem dúvidas se é um dom ou um fardo a ser empurrado sem nunca poder ser superado. Segue como os outros, sem, nessa outra vida, ser nada de distinto ou ao menos se preocupando para não agir de forma distinta do resto, sempre com muito medo.
Acredito que está se perguntando por que tracei todo esse panorama dessas três personagens, e de uma certa forma curioso para saber o algo escondido, o suspense, o climax, aquilo que fará, no fim de tudo, esse pequeno comentário ter algum sentido, ou pelo menos, alguma coesão que lhe dê a coerência necessária de um texto a ser levado a sério. Contudo, leitor, sinto desapontar-lhe, mas não serei capaz de lhe dar algo parecido com isso. Tudo isso aqui, todas as essas linhas desconexas de caminhos, não-caminhos e quase-caminhos, não têm outra função que chegar a esse fim, esse único elo de ligação simples e bobo que os fazem um só, e tenta imputar nessas pobres histórias um pobre sentido: aquilo que alguns chamam de um narrador.
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