Cavamos nossas próprias sepulturas. E, dessa vez, sei que cavo bem fundo. Me enterrando nessa loucura suicida acabo por, já com terras nas vistas, não conseguir mais ver minha ferramenta nessa obra. Me enlouqueço para acreditar que cheguei ao fundo, que daqui não há mais volta, que estou fadado à submersão a sete palmos. No entanto não me contento: chamo uma mão para que me desafogue apenas um pouco, fingindo para mim mesmo outro objetivo a não ser cavar mais. Me traio e é isso que busco: a possibilidade de cavar cada vez mais, para um dia descobrir até de que altura eu sou capaz de cair. Cavo minha sepultura sabendo que um dia é no construto de minhas próprias mãos que irei pular. Para suprir o vazio que já construí, trabalho para superdimensioná-lo até conseguir crer que efetivamente cresceu. Confundo ausência com falta, amor com posse e devaneio com efetividade. Mesclo o vazio com o próprio ser e chego às vezes a deduzir que não há sepultura alguma. Num último clamor de esperança espero apenas que eu não espere para acreditar num último suspiro de salvação de mim mesmo.
Breve Parábola de um Pequeno Sonhador
"Vovô! Vovô! O que o senhor vê quando olha para as estrelas?" perguntou o pequeno garoto, esparramado inerte na relva perante a varanda onde o avô meditava.
O mais velho caminhou então até o parapeito, olhou o menino, riu baixo e disse: "Eu vejo o quanto somos pequenos embaixo desse céuzão cheio de estrelas"
"Por quê?" questionou o menino intrigado.
"Oras, porque cada um desses milhões de pontinhos é na verdade uma estrela gigantesca igual ao Sol que também é muito muito muito maior que o nosso pequeno mundinho".
"Quem foi que contou isso para o senhor, vovô?" continuou o menino, ainda desconfiado.
"Foi o meu avô, mais ou menos quando eu era quase da tua idade" respondeu, paciente, o avô, orgulhoso do conhecimento que transmitia e desviando o olhar para o firmamento, a essa hora todo iluminado pelas centelhas luminosas de milhares de estrelas.
Após esse pequeno diálogo, ficaram os dois um tempo em silêncio. Foi depois do que pareceu uma medida reflexão que o pequeno decidiu se expressar, sem desgrudar os olhos da abóbada celeste:
"Vovô, eu acho que ele mentiu para o senhor... de dia, o Sol é um pouco maior do que o meu pé".
Perante tal comentário, o mais velho não pôde deixar de rir-se, ao menos um pouco, antes de responder "Isso, meu filho, é porque ele está longe... muito longe... igual à Lua e a todas as estrelas que você e eu estarmos observando agora".
No entanto, o menino ainda buscou um pouco nas estrelas o seu ponto de vista, e aparentemente sem encontrar nelas algum indício que contradizesse seu pequeno entendimento, respondeu por fim: "Vovô... eu acho que o avô do senhor esqueceu de olhar as estrelas".
Talvez
Poucas pessoas no mundo poderiam dizer que sentiram o que me passa agora. Por falta de palavras mais apropriadas, depois de uma pequena reflexão, esta talvez seja a melhor definição para aquilo que tentei transparecer. Uma paz criativa. Desesperadamente alheia à antagônica paixão que normalmente acompanha o epíteto, sinto dessa vez, e talvez pela primeira vez, paz – e um quê de criação. Arriscaria dizer até que sinto o extremo oposto do conhecido rubro, e que, imagine só, a paz lhe seja talvez o complementar diametral. O vôo, imagino eu, pode ser o contrário da afirmação. Em outros tempos, existiria quem sabe uma frase forte e marcante, com a qual eu me impusesse e desenhasse em demasiada densidade o meu âmago e a minha produção. Mas dessa vez, arrisco dizer que dissolvo. Ignoro a realidade aos poucos, tentando me concentrar em meus poucos meios e ínfimo treinamento, no meu próprio, único e diverso processo de criação. Único e diverso talvez, não só pelas tão batidas individualidade e subjetividade, mas desta vez – e, obviamente, não só desta vez, pela natureza própria do tempo-espaço. Procuro as palavras que me servem e o tom que acredito que mais me apraz, sem perceber que é possível que desta vez o segundo me fuja completamente. Sinto paz, mas não sei se escrevo paz. Que pena. Contento-me em saber que crio. Nasce aqui, em meio a tanta paz, o meu primeiro talvez.
Poemas Secretos (II)
liberdade
infinito azul multicor
cingido de alvas formas amorfas
flutua
(simples).
a brisa dança
e com o sol, parece sorrir
nada ali falta.
nada ali sobra.
nada, lá em cima.
infinito azul multicor
cingido de alvas formas amorfas
flutua
(simples).
a brisa dança
e com o sol, parece sorrir
nada ali falta.
nada ali sobra.
nada, lá em cima.
Eterno Pierrot (I)
~
Vivo entre horas de extrema alegria e tristeza. Minha mente já não mais me entende, só continua seguindo o ritmo. O ritmo do violino, do piano, do bumbo, sigo o ritmo da vida e sigo dançando. Allegro e adagio se fundindo no pot-pourri da melodia de cada dia. E eu danço. Sigo dançando a eterna marcha do palhaço triste.
Eterno pierrot, sou eu.
Eterno pierrot, sou eu.
~
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