"Um museu. Estávamos passeando num museu. O guia falando coisas por nós completamente ignoradas. A única coisa que era compreendida por nós era a proximidade que existia entre nós naquele momento. Abraçados, sem vergonha de sermos vistos, seguíamos o guia sem mesmo prestar-lhe a mínima atenção. Constantemente trocávamos olhares, carícias, sorrisos e beijos. Num determinado ponto, o guia tinha seguido seu caminho e nós nos esquecemos inclusive de seguí-lo. Ficamos então a observar o grande salão, seus variados artefatos, muitas vezes por nós completamente desconhecidos. Foi nesse momento que, por algum motivo que acho que nunca muito bem consegui entender, um objeto em especial me chamou a atenção. Um antigo objeto que eu, por algum outro motivo, também nunca havia visto. Uma espécie de viro, forjado próximo à forma de um oito, com uma pequena passagem entre os compartimentos. No compartimento inferior, uma quantidade do que parecia areia que quase o preenchia por completo. “O que é aquilo?”, perguntei a ele, minha enciclopédia, apontando para o estranho objeto. “Ah... aquilo é uma ampulheta!” ele respondeu. “Ampu-oquê?” “Um objeto de vidro utilizado muito pelos antigos para marcar o tempo. Se alguém a virar, a areia vai passar, quase que de grão em grão, para o outro compartimento. Quando a areia toda já tiver passado, significa que uma determinada fração do tempo já se passou”. Depois de uma determinada fração do tempo, misteriosamente, fui tomado de um ímpeto de retirar o tal objeto da prateleira, para observá-lo melhor. Contudo, de tão frágil que era, tão logo o tomei nas mãos, ele se quebrou. A fina quase areia escorria pelas minhas mãos, por entre meus dedos, fazendo como que uma suave carícia, mas por mais que eu tentasse, num desespero pouco contido, contê-la, era uma função impossível. Parei de súbito de tentar, e fiquei apenas como que observar os últimos inúmeros grãos me escaparem. Quando percebi, ele estava a rir de mim. Ria muito, quase não se importando de eu ter acabado de destruir o artefato. Ele então se aproximou, me olhou, e disse simplesmente que eu havia muito que não podia conter. O tempo era só um exemplo delas. Lembro-me de ter-lhe perguntado se o tempo ou qualquer outra dessas coisas venceria o nosso amor. Ele prometeu que não."
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