“Era uma noite quente de verão. Eu estava sentado próximo a algumas árvores, à beira de um pequeno lago. Ele estava deitado em meu colo, e eu podia sentir a sua respiração contrastando com o silêncio total do pequeno bosque. A prazerosa companhia, o contato com a natureza e algo dentro de mim que acho que nem eu mesmo podia explicar se combinaram sutilmente num sorriso que se abriu em meu rosto sem sequer parecer discreto. Ele pareceu perceber a alteração de minhas feições, se virou para mim também sorrindo. Sem dizer nada, apenas o fiz sentar e me levantei calmamente. Aos poucos, fui me livrando de todas as peças de roupa que vestia, também de uma forma quase ritmada, como que não quisesse, por qualquer movimento abrupto, estragar a suave harmonia mágica que aquele ambiente parecia tão facilmente compor. Lembro-me que me pus a andar, acompanhando a orla do pequeno lago, sob o seu olhar um pouco em dúvida. Sentei-me então sobre uma das muitas formações rochosas que ladeavam o pequeno curso d’água, deixando, como se tudo fosse perfeitamente calculado, apenas a ponta dos meus pés tangenciar a superfície do que parecia a mais perfeita serenidade. Não me lembro ao exato porque, mas sei que assim me detive por um tempo, quase sem perceber, enquanto o sorriso do rosto dele desaparecia por completo. Todo o seu corpo, todas as suas emoções, sentimentos e sentidos, todo o seu raciocínio e sua percepção se voltaram como que uma só para o mais nobre exercício da contemplação. A lua estava cheia e brincava com o pequeno lago. Sua luz era cor de prata e banhava todo o meu corpo. Visto desse ângulo, eu tinha algo de delicadamente feminino. Por trás do corpo bem trabalhado e torneado, era possível reparar em curvas bem delineadas, que contribuíam para o ar de magia que pairava. À minha volta, como plano de fundo, tudo era do mais verde musgo que pouco chamava a atenção, mas bem se fazia presente, importante para a composição de tudo aquilo. Um pouco de azul muito escuro que ostentava com orgulho seus pequenos pontos de brilho se oferecia como moldura, como um toque final. Eram elas, as estrelas, as únicas companhias que não o deixavam sozinho para testemunhar aquela efemeridade do mais perfeito e puro belo. Ele sentia como se observasse a obra de arte que esperara por toda a vida, se ele pudesse dizer que sentia. Se pudesse também ter uma certeza, seria a de que seria em vão esperar que algum pintor, escultor ou fotógrafo pudesse representar aquela cena de modo tão fantástico. Ela continha algo de passageiro, algo de um momento ínfimo que ele tinha que contemplar ao máximo, pois logo se perderia. E se perdeu. Depois desse curto período que o tempo parecia simplesmente ter sido caridoso o suficiente para se esquecer de passar um pouco, eu logo tornei a me levantar, e num único salto, mergulhei naquela água cristalina, cortando o transparente numa linha perfeita. Tudo isso foi como que inconsciente, como se eu fizesse já parte daquele todo, de modo a conseguir não deturpá-lo de forma alguma. Meu amor seguiu minha silhueta com os olhos, e então logo também se despiu e também se permitiu fazer parte daquele todo harmonioso, seguindo-me para dentro d’água. Logo me abraçou pelas costas, e encaixou seu pequeno queixo na curva do meu ombro, podendo, com o mínimo de voz, sussurrar ao pé do meu ouvido: “Eu te quero mais do que tudo nesse mundo, ouviu?”. E foi quando eu me virei para ele, olhei profundamente naqueles olhos que já bem começara a conhecer e respondi: “Então me toma, porque eu sou seu... todo seu”."
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