Lembranças (III)

"Estávamos agora num jardim de uma rica casa. Uma variedade estrondeante de flores, cores, luzes e odores. Não sei se tinha a ver, mas tudo me parecia muito muito mais belo e vivo. Na primavera meus instintos amorosos costumavam se ampliar e eu sentia a necessidade de estar com ele a cada minuto, cada segundo, cada momento. Num dos poucos em que não pensava nisso, andava sem rumo, rodando às vezes sem motivo, pelo jardim, sem outro objetivo que não o aspirar daquele doce olor. Foi nessa tentativa que percebi uma flor. Uma linda flor branca, única naquele jardim. Parei e observei-a mais de perto, hipnotizado. Ele então chegou ao meu lado e me perguntou: “Gostou desta flor?”. “Hum-hum, respondi afirmativamente, Muito”. Ele levou então uma das mãos ao pequeno caule e arrancou a plantinha de seu local. “Então, ela é sua!” e me entregou. Novamente me perdi naquele torpor e ele me abraçou possessivamente. Me segurou, e rodou o corpo, trazendo-me com ele, como num passo de dança. Foi um momento único. Fechei os olhos, e me deixei ser guiado. Após um tempo, ele parou e ficou apenas a me fitar. Ao que respondi com uma expressão de dúvida, ele me explicou, ajeitando meu cabelo por detrás de minha orelha: “Você é muito lindo, sabia?”. Não pude evitar, e fiquei muito corado com o elogio. Sua mão encontrou meu queixo, e me impediu que desviasse o olhar do seu, perdendo-me na imensidão daquele azul que tão bem começava a conhecer. A pequena flor escorregou dos meus dedos, e minha primeira reação foi ir ao chão para resgatá-la. Foi então que me machuquei com um dos seus espinhos. Do pequeno corte um pouco de sangue jorrou, e ele, antes que eu tivesse qualquer reação, tomou a florzinha da minha mão. Propositalmente, lancetou com um dos espinhos a ponta do seu dedo, e uniu-o ao meu, antes que fizesse qualquer coisa para conter o sangramento. Ali, naquele pequeno momento, ele nos uniu para sempre com laços de sangue. Ali, num lindo dia de primavera, percebemos que seríamos sempre um do outro, que não havia mais forma de escapar. Ali, num lindo dia de amor, juramos silenciosamente um amor eterno que não haveria nunca de morrer."

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