Shh...

Eu sei. Eles sabem. Eu sei que eles sabem. Eles sabem que eu sei. Eu sei que eles sabem que eu sei. Eles sabem que eu sei que eles sabem. Eu sei que eles sabem que eu sei que eles sabem. Eles sabem que eu sei que eles sabem que eu sei. Eu sei que eles sabem que eu sei que eles sabem que eu sei. Eles sabem que eu sei que eles sabem que eu sei que eles sabem. Eu sei que eles sabem que eu sei que eles sabem que eu sei que eles sabem. Eles sabem que eu sei que eles sabem que eu sei que eles sabem que eu sei. O quê? Shh... é segredo!

Ei, você!

Ei, você! Está na hora de acordar e viver. De que te vale o teu sono perpétuo de morte e segurança? Vem, te levanta. Duvido que tens coragem de estufar o peito e te arriscar. Teu medo não vale nada, nem sequer mais que aquele momento místico que tua embaçada visão não te deixou ver. Vem, te levanta. Algum dia o sol vai sorrir pra ti, e serás incapaz de sorrir a um belo dia. Vives imerso em teus pensamentos egoístas e, cego, não vês que te afogas. Num mar de pérfidos amores e dolosos olores estás à deriva e ninguém se importa, nem mesmo você. Mas você chora e grita e chama e clama. E ninguém vê. Teus esforços são em vão se procuras um farol em ilha alheia. Vem, te levanta. Posso ver-te perdendo-se no teu próprio perfeito devir de enganar ao que procuras a entrada para a estrada do nunca mais. Teu céu de diamantes perde-se num véu de nuvens finas da convenção e da norma e, de repente, não mais mais consegue ver o que está por baixo. Vem, te levanta. Sou eu quem te chama para viver. Para criar tuas próprias regras, teus próprios desafios, tua própria arte. Vem, te levanta. Olhe um pouco para si mesmo, e encontrarás a mim, bem lá no fundo, pedindo para não morrer. Homeopaticamente envenenado, me calo aos poucos, mas não antes sem meu último pranto, para que percebas que aqui existe teu verdadeiro eu, já que na frente do espelho você é incapaz de olhar dentro de teus próprios olhos e sorrir.

Olhos de Outono

Certo dia, uma garotinha chegou até mim e disse, com sua vozinha suave, que eu tinha olhos de outono. Saiu para brincar e me deixou ali, sentado imóvel, como se a refletir o real significado daquelas poucas palavras. Assisti, sem perceber, as folhas passarem do verde, ao amarelo, e ao dourado, dançando leves, quase plumas, na amena brisa da estação. E, sob todos os olhos negligentes, as árvores se despiam, revelando-se, nuas, como se mostram todos os anos, mas nunca são observadas com a cautela que desejam. Se certa vez o foram, desconhecem esse fato, talvez por opção, mas acredito que pediriam desculpas se o pudessem fazer. A tudo isso, havia um par de olhos curiosos que assistia. Olhos de criança, daquela que eu gostaria de ter sido um dia, que nunca se cansou de observar e de se admirar. E as folhas dançam, e as árvores se despem, e as crianças brincam, e o vento sopra, e o sol se põe. E sob o último raio que tinge de um tom alaranjado todo esse retrato que pintamos, uma suave vozinha familiar ressoa, antes que a chuva pudesse se armar: “não chora não moço, e, me abraçando, completou: eu gosto do outono".

Lembranças (I)

"Era um belo dia do rigoroso inverno que passávamos. A neve a tudo cobria com seu manto branco. A paisagem era sim, muito bela. Mas eu estava feliz por outro motivo. Estava ali por outro motivo. Era dia dos namorados. Pouco mais de uma semana fazia que havíamos começado a namorar, e estava tudo em seu mais perfeito lugar. Tudo era maravilhosamente novo e eterno para nós dois. E eu ali, sentado no telhado, quase imóvel, a observar aquela belíssima paisagem. Uma fina neve caía sobre meus cabelos cor de cobre, mas eu sequer me importava. Mantinha um sorriso estampado no rosto, apesar do frio que se passava lá em cima. A casa era no topo de uma pequena montanha, nada muito alto, mas o suficiente para que pudéssemos ver toda a pequena vila lá embaixo, totalmente sucumbida à severa força do inverno. E apesar de tudo, eu sorria. Percebi então, que ele subia também no telhado. Havia saído cedo de casa, e eu não o havia visto desde então. "Por que você está aqui em cima?”, me perguntou, sentando-se ao meu lado. Sem ao menos virar o rosto, para que não perdesse aquele momento tão frágil e efêmero de contemplação, deitei em seu ombro e sussurrei “Como é lindo...”
Aos poucos, percebi que estava um pouco nervoso, que seu coração palpitava acelerado, aparentemente sem motivos, e então o olhei interrogativamente e perguntei o que era. Ele estendeu a mão com um belo, mas simples embrulho. Um papel cor de prata envolvia o misterioso presente delicadamente atado com uma fita vermelha. “Passei a manhã inteira procurando isto... para você” Por alguns instantes fiquei sem saber o que falar. Realmente, ele, com tão pouco tempo de namoro, já conseguia mesmo me surpreender. Minhas mãos ansiosas tomaram o embrulho das dele, e começam a desfazê-lo, curiosas quanto ao seu conteúdo. Li a dedicatória com olhos veementes e, sem reação, me joguei aos seus braços num abraço que de tão aconchegante nunca mais pôde me sair da memória, mesmo fraca. Murmurei então, trêmulo de emoção, fitando o pequenino livro de cabeceira com o título desenhado em letras de outro: “Lembranças”:
“Eu... Eu te amo.”"

Dunas

Ventava muito. Talvez mais do que da última vez que visitara aquelas dunas. A areia alva pegava carona com a forte ventania provocando tempestade baixa. Mirava o nada e sentia a fraca massagem da areia nos tornozelos. Iria enterrar aquilo. Havia prometido a si mesmo que iria. E às amigas também. Ele não as deixou ler o bilhete que trazia no bolso, mas mesmo assim elas vieram com ele. Trouxeram seus bilhetes, mas ele não se importava muito, já focalizava outras idéias. E se alguém lesse? Não saberia que teria sido ele. E se, por instância, soubesse? Não haveria como descobrir o porquê ou como provar que havia sido ele o autor. Estava tudo perfeito.
"Vamos! Enterra logo!" uma das amigas, impaciente, chamou.
Sem responder, ele abaixou e cavou um pequeno buraco. Deixou o papel dedicadamente dobrado ali. O nome do destinatário foi, aos poucos, sendo coberto com areia, e foi sobre a mesma que assinou um símbolo e saiu. Aos poucos, a areia cobriu a assinatura que desapareceu entre os grãos. Ventava muito.

Encadernações

Foi depois de um certo tempo que eu resolvi encaderná-las. É tão triste ver as memórias se esvaecerem no ar. De repente, aquilo que simplesmente fazia toda a diferença pra mim, e para a minha existência, simplesmente era arquivado num lugar que eu não conseguia acessar, numa espécie de backup inatingível, só para emergir em algumas situações e novamente mergulhar no universo do quase-esquecido. Quase, porque aquilo que eu esqueci, por mais importantes que fossem, eu já não posso julgar, porque absolutamente já não mais me pertecem. Mas uma certa lacuna aqui dentro me diz que já perdi coisas importantes demais. E é essa lacuna que me deixa vivo. E é essa lacuna que me faz escrever. A lacuna do que passou e não volta mais, e não deixou nenhum vestígio encadernado. A lacuna que guarda o vazio para o que está sempre por vir, para que possa existir alguma chance que isso me seja útil e armazenado naquilo que chamam de memória. O problema então, é que até o backup corre o risco de se perder, e se perder pra sempre. Eu precisava então de torná-las eternas. O etéreo simplesmente pra mim não era mais uma solução. Roubei uma idéia de encadernar memórias, e, do meu jeito, optei pelas palavras, talvez pela intimidade, talvez pelo objetivo, talvez por vários motivos, mas no momento que eu as escolhi, abriu-se para mim um motivo. Não sei exatamente que motivo foi esse, mas quem sabe no fim das encadernações eu não traga somente memórias, mas também traga também uma subjetividade única para que eu possa talvez me entender um pouco mais e, quem sabe então, possa começar a encadernar motivos e utopias.