Dedicatória

Fazia quase oito meses. Quase oito meses até aquele número que datava o pé da página. Os olhos correram rápidos as poucas linhas, tentando digerir cada letra, cada sentimento expresso ali em poema. Uma pequena ode que soava como música para os meus ouvidos sedentos de amor. Quase imediatamente um par de lágrimas rolou pelo meu rosto pálido. Mas ainda não foi suficiente. Precisei reler a data vêementemente até conseguir acreditar. Era irônico, completamente irônico. Dizia ao outro que ainda o amava, no mesmo dia em que repetia que iria me abraçar pro resto dos meus dias. O livro caiu das minhas mãos trêmulas e incapazes, com a pequena página aberta, a tinta fresca marcando forte a sua escrita inconfundível. Remoía até em voz alta as frases que insistiam em ecoar para dentro da minha cabeça. Iriam com certeza ecoar ainda por toda a minha existência, ainda mais intensas quando estivesse em seus braços. Era irremediável aquilo, por um motivo maior ele estava comigo, mas não consiguia negar a si mesmo que seu coração clamava outro nome. Gritava a plenos pulmões naquela pequena dedicatória que escreveu no livro que pretendia dar de presente a ele. Dar a ele anteontem... poucos dias antes de se completarem oito meses.

Nenhum comentário: