Olhos de Outono

Certo dia, uma garotinha chegou até mim e disse, com sua vozinha suave, que eu tinha olhos de outono. Saiu para brincar e me deixou ali, sentado imóvel, como se a refletir o real significado daquelas poucas palavras. Assisti, sem perceber, as folhas passarem do verde, ao amarelo, e ao dourado, dançando leves, quase plumas, na amena brisa da estação. E, sob todos os olhos negligentes, as árvores se despiam, revelando-se, nuas, como se mostram todos os anos, mas nunca são observadas com a cautela que desejam. Se certa vez o foram, desconhecem esse fato, talvez por opção, mas acredito que pediriam desculpas se o pudessem fazer. A tudo isso, havia um par de olhos curiosos que assistia. Olhos de criança, daquela que eu gostaria de ter sido um dia, que nunca se cansou de observar e de se admirar. E as folhas dançam, e as árvores se despem, e as crianças brincam, e o vento sopra, e o sol se põe. E sob o último raio que tinge de um tom alaranjado todo esse retrato que pintamos, uma suave vozinha familiar ressoa, antes que a chuva pudesse se armar: “não chora não moço, e, me abraçando, completou: eu gosto do outono".

Um comentário:

Tyfr disse...

Nussa!!!
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